27 de Setembro de 2019

UMAS 500 ESPÉCIES DE PEIXES MUDAM DE SEXO DE FORMA NATURAL

O ser humano ainda está, como quem diz, em período de aprendizagem. Mas no caso de algumas espécies animais é muito diferente, já que mudar de sexo é um processo rutinário e até intrínseco no seu ciclo de vida. Já se demonstrou que à volta de 500 espécies de peixes são capazes de reconfigurar na generalidade as suas gônadas e levar a cabo mudanças na sua “memória” celular. Entre elas, o peixe-palhaço, o kobudai ou o caribenho Labrido de Cabeça Azul.

Sobre este último realizou-se um estudo publicado na revista Science Advances. A sua coautora, Erica Todd, do Departamento de Anatomia da Universidade de Otago (Nova Zelândia), afirma que “a maioria dos Labrido de Cabeça Azul iniciam a sua vida como fêmeas, mas também podem mudar de sexo mais tarde convertendo-se em machos, um processo que tarda de 10 a 21 dias a completar-se”.

Assim, o sexo destes peixes não estaria em absoluto estabelecido ao nascer e poderá mudar como resposta à perda de um macho dominante. Se isto ocorre, a fêmea mais grande não tarda em ocupar o seu lugar numa questão de 10 dias. O processo começa em poucos minutos e compreende diferentes fases: primeiro, a fêmea muda a sua cor e o seu comportamento; depois, os seus ovários retraem-se; desenvolvendo testículos completamente funcionais.

Tendo por base enfoques genéticos na sequenciação do ácido ribonucleico (RNA) e análises epigenéticos, sabe-se quando e como genes específicos se activam ou desactivam no cérebro e nas gônadas para que a mudança de sexo se produza. “Encontramos que, primeiro, se ‘apagam’ os genes necessários para a manutenção do ovário, e mais tarde voltam a “acender” um novo caminho genético que promove a formação de testículos”.

Não há lugar para dúvidas é possível induzir a mudança de sexo retirando os machos dominantes de grupos sociais desta espécie de peixes, estabelecida nos corais da costa da Florida. A chave encontra-se na desactivação da enzima aromatasa, responsável por criar a hormona femenina, estrôgenio. Ainda que não se saiba com exatidão o que provoca esta desativação, baralha-se a possibilidade de que o causante seja o stress derivado de uma alteração no equilíbrio social.

Um exemplo idóneo de adaptação que segundo Óscar Ortega-Recalde, outro coautor do estudo, também é possível graças à “memória” celular: “Nos peixes e outros vertebrados, incluindo os humanos, as células usam marcadores químicos sobre o ADN que controlam a expressão dos genes e recordam a sua função específica no corpo (…) O nosso estudo é importante porque mostra que a mudança de sexo involucra mudanças profundas nos marcadores químicos, por exemplo, no gene da aromatasa, com o que reconfigura a memória celular nas gônadas para um destino masculino”.

Mas os Labrido de Cabeça Azul, os peixes palhaço ou os kobudai, não estão sozinhos. Também observamos este tipo de mudanças em alguns moluscos, crustáceos, equinodermos e anfibios. E se entre eles é algo natural, porque não entre nós?

Fonte: EFE